A transição para a parentalidade sob as lentes da psicologia, da sociologia e da pesquisa empírica sobre a conjugalidade
A transição para a parentalidade constitui uma das fases de maior vulnerabilidade na trajetória de um casal, amplamente reconhecida pela literatura psicológica e sociológica como um período crítico para a estabilidade da união conjugal. Embora socialmente idealizada como um momento de convergência e plenitude afetiva, a chegada do primeiro filho inaugura uma reordenação estrutural da dinâmica relacional, frequentemente acompanhada de queda significativa na satisfação do casal e de aumento expressivo da conflitualidade. Não por acaso, as Estatísticas do Registro Civil do IBGE revelam que quase metade dos divórcios brasileiros — 47,8% em 2023 — ocorre em menos de dez anos de união, em uma tendência crescente que projeta luz justamente sobre a fragilidade dos primeiros anos da vida familiar.
Esse fenômeno traduz-se em uma concentração expressiva de rupturas conjugais precisamente no período em que o casal se torna família, marcado por elevado desgaste emocional e por conflitos agudos. Compreender a etiologia dessa fragilidade exige uma abordagem interdisciplinar, capaz de integrar as dimensões psicológica, biológica, sociológica e relacional do vínculo.
Longe de apontar o nascimento do filho como a causa primária da separação, a análise técnica demonstra que o bebê atua como um potente catalisador, expondo e tornando visíveis as fragilidades e incompatibilidades que o casal conseguia mascarar quando a rotina era mais leve. Na leitura do psicólogo do desenvolvimento Jay Belsky, pioneiro no estudo longitudinal dessa transição, o nascimento de um filho não cria, em regra, problemas inéditos no casamento: ele revela e amplifica aqueles que já se encontravam em estado latente. Essa compreensão converge com a leitura sistêmica de Salvador Minuchin, para quem a família deve ser entendida como um sistema em permanente reorganização, no qual a introdução de um novo membro impõe a redefinição de fronteiras, papéis e hierarquias internas.
A crise da transição para a parentalidade: o fenômeno psicológico e relacional
A literatura científica dedicada ao desenvolvimento familiar descreve a transição para a parentalidade como uma fase de profunda turbulência e reorganização de papéis. O casal, que até então operava sob uma estrutura diádica — voltada para o suporte mútuo, o lazer compartilhado e a intimidade espontânea —, é compelido a migrar para uma dinâmica triádica, inteiramente condicionada pelas demandas ininterruptas de um terceiro totalmente dependente. Como observa a psicanalista Françoise Dolto, essa passagem exige dos pais uma maturidade psíquica que nem sempre está consolidada: a criança não chega para preencher um vazio dos pais, mas para ocupar um lugar próprio, o que lhes demanda uma reorganização simbólica e afetiva.
No campo empírico, os estudos longitudinais que sustentam essa compreensão são robustos e convergentes. As investigações pioneiras de Jay Belsky e o clássico estudo de Alyson Shapiro, John Gottman e Sybil Carrère — que acompanhou 130 casais recém-casados ao longo de seis anos, dos quais 43 se tornaram pais durante a pesquisa — documentam que a chegada do primeiro filho costuma precipitar um declínio acentuado na satisfação conjugal, sobretudo entre as mulheres: entre as que se tornaram mães, cerca de dois terços relataram queda na satisfação com o casamento, contra aproximadamente metade das esposas que permaneceram sem filhos. Em obra de referência, And Baby Makes Three (2007), John e Julie Gottman quantificam esse desgaste de forma ainda mais incisiva: a partir de um conjunto de dezesseis estudos sobre casais antes e depois do nascimento, estimam que aproximadamente dois terços — cerca de 67% — sofrem queda relevante na qualidade do relacionamento nos três primeiros anos após a chegada do bebê. Para esses casais, segundo os autores, o conflito e a hostilidade recíproca aumentam de modo dramático.
A obra dos Gottman sistematiza as principais vias de ruptura a partir da chamada Teoria da Casa do Relacionamento Sólido (Sound Relationship House), cujas colunas de sustentação são a confiança e o compromisso. Nesse modelo, a erosão da amizade conjugal, a redução da comunicação empática e a incapacidade de gerir conflitos cotidianos precipitam a deterioração, frequentemente anunciada pela presença dos chamados “Quatro Cavaleiros” da relação: a crítica, o desprezo, a defensividade e o distanciamento evasivo (stonewalling). Quando o subsistema parental é inaugurado, a conjugalidade e a satisfação mútua tendem a migrar para o plano de fundo, e a incapacidade de aceitar que a configuração familiar mudou em definitivo gera uma quebra de expectativas. Quem não se encontra psiquicamente preparado para essa perda de exclusividade vivencia um sentimento de luto e de abandono em relação ao parceiro.
A magnitude e a persistência desse declínio foram demonstradas de forma especialmente rigorosa por Brian Doss, Galena Rhoades, Scott Stanley e Howard Markman, em estudo prospectivo publicado no Journal of Personality and Social Psychology (2009), que acompanhou 218 casais ao longo dos oito primeiros anos de casamento. Os autores constataram que os pais apresentaram uma deterioração súbita após o parto, observável tanto em medidas autorrelatadas quanto em medidas observacionais dos aspectos positivos e negativos do funcionamento conjugal — de magnitude pequena a moderada, mas que tendeu a persistir ao longo de todos os anos seguintes do estudo. O fenômeno acometeu mães e pais em proporções semelhantes e veio acompanhado de queda no comprometimento, configurando o que a literatura denomina “modelo de crise”: um declínio abrupto e duradouro, e não uma simples acomodação transitória.
No mesmo sentido, Carolyn Pape Cowan e Philip Cowan, em When Partners Become Parents (1992), fruto do longevo projeto de Berkeley (Becoming a Family Project), documentaram que parcela significativa dos casais experimenta, nos primeiros anos após o nascimento, um declínio acentuado na satisfação conjugal, com muitos ingressando em níveis de sofrimento relacional clinicamente relevantes. A pesquisa dos Cowan é particularmente valiosa por evidenciar que, para muitos casais, a trajetória rumo ao divórcio se inicia precisamente com a queda na satisfação relacional da mulher após a chegada do primeiro filho. O estudo demonstrou, ademais, que casais expectantes submetidos a uma intervenção preventiva em grupo conseguiram preservar sua satisfação conjugal ao longo de cinco anos e meio, ao passo que o grupo de controle, sem qualquer apoio, declinou — o que reforça a tese de que a crise não é um destino inexorável, mas um risco modulável pela qualidade do vínculo e pelo suporte disponível.
A produção científica brasileira, contudo, adiciona um contraponto sofisticado e necessário a esses números. Os estudos do Núcleo de Infância e Família (NUDIF) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenados por Cesar Augusto Piccinini e Rita de Cássia Sobreira Lopes, demonstram que a crise não é um efeito automático da parentalidade. Em estudo longitudinal de casos publicado na Psico-USF (2007), Menezes e Lopes concluem que não é a transição para a parentalidade, em si, que gera a crise no sistema familiar e conjugal: é a história de cada casal e a qualidade de sua relação afetiva prévia que determinarão a existência ou não dessa crise. Casais com sólido envolvimento emocional sofrem as mudanças impostas pela parentalidade, mas conseguem, ainda assim, preservar a conjugalidade. No plano quantitativo nacional, Hernandez (2005), em tese defendida na mesma universidade, avaliando setenta e dois sujeitos antes e depois do nascimento por meio da Escala de Ajustamento Diádico, constatou decréscimo significativo no ajustamento conjugal do período pré para o pós-natal — confirmando, em solo brasileiro, a tendência observada internacionalmente.
Sob a perspectiva sociológica, Anthony Giddens oferece chave de leitura adicional ao descrever a relação contemporânea como um “relacionamento puro”, sustentado pela expectativa de satisfação emocional contínua e mantido apenas enquanto entrega gratificação recíproca aos parceiros. Nesse modelo, a chegada de um filho — com suas exigências assimétricas, suas renúncias e sua imprevisibilidade — tensiona profundamente o equilíbrio da relação, sobretudo quando esta já se encontrava fragilizada. O que se observa, portanto, não é a falência provocada pelo filho, mas a falência revelada por ele.
Os vetores de ruptura: sono, sobrecarga e a ilusão reparadora do filho
A erosão do vínculo conjugal no pós-parto é impulsionada pela convergência de fatores estressores de ordem fisiológica, prática, sociológica e de saúde mental, que operam de modo interdependente.
O primeiro vetor é a privação crônica de sono e a hipervigilância. O sono fragmentado e a exaustão física reduzem severamente a capacidade de regulação emocional dos genitores. Sob privação de sono, as funções executivas do cérebro são comprometidas, o que diminui a tolerância à frustração, eleva a irritabilidade e encurta o limiar para o desencadeamento de discussões impulsivas e de episódios de agressividade verbal — transformando desavenças triviais em conflitos desproporcionais.
O segundo vetor é a divisão desigual do trabalho de cuidado. Mesmo em uniões fundadas em princípios igualitários, o nascimento do bebê tende a empurrar a dinâmica familiar para uma divisão tradicional e assimétrica de tarefas. O puerpério e o aleitamento impõem à mãe uma carga física e mental desproporcional, fenômeno que a socióloga Arlie Hochschild consagrou sob a expressão “segunda jornada” (the second shift): a jornada de trabalho doméstico e de cuidado que se soma, invisivelmente, ao trabalho remunerado. A esse esforço acrescenta-se a chamada “carga mental” — o trabalho cognitivo e organizacional, contínuo e silencioso, de planejar, antecipar e monitorar as necessidades da casa e da criança. No Brasil, estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas estima que 65% do trabalho não remunerado de cuidados é realizado por mulheres, que lhe dedicam até 25 horas semanais, contra cerca de 11 horas dos homens. A psicologia social demonstra, ademais, que é a percepção de injustiça nessa divisão — mais do que o número absoluto de horas — o preditor mais consistente de ressentimento crônico e de desgaste da coesão diádica.
O terceiro vetor reside na vulnerabilidade fisiológica e na saúde mental periparto. O puerpério é caracterizado por intensas oscilações hormonais, elevando a suscetibilidade a quadros depressivos e ansiosos. A depressão pós-parto, descrita no DSM-5 como episódio depressivo maior com início no periparto, possui prevalência elevada: pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, conduzida por Mariza Theme-Filha no âmbito do estudo Nascer no Brasil e baseada em entrevistas com cerca de vinte e quatro mil mulheres, encontrou prevalência de 26,3% de sintomatologia depressiva pós-parto no país. O fenômeno, porém, não é exclusivamente materno. A meta-análise de Paulson e Bazemore, publicada no JAMA (2010), identificou prevalência de 10,4% de depressão paterna nos períodos pré e pós-natal, com pico de 25,6% entre o terceiro e o sexto mês após o nascimento. Como a baixa satisfação conjugal é, ao mesmo tempo, causa e consequência desses quadros, instala-se um ciclo bidirecional de adoecimento e conflito. Donald Winnicott, ao formular o conceito de “preocupação materna primária”, já advertia que esse estado de intensa dedicação psíquica ao bebê, embora necessário ao desenvolvimento infantil, pode implicar afastamento temporário da relação conjugal, exigindo do parceiro compreensão e sustentação.
O quarto vetor é a frustração das expectativas de idealização — a ilusão reparadora do filho. Em muitos cenários, o casal, ou um dos parceiros, idealiza o nascimento como mecanismo de reparação de uma relação já desgastada ou distante. Trata-se de expectativa frequentemente inconsciente e quase sempre ilusória. Zygmunt Bauman, ao analisar as relações líquidas da modernidade, observa a tendência contemporânea de buscar soluções imediatas para fragilidades estruturais — e a parentalidade, nesse contexto, pode ser erroneamente investida de uma função salvadora que jamais poderia cumprir. A terapeuta de casais Esther Perel, em Mating in Captivity (2006), descreve com agudeza por que a transição para a parentalidade tantas vezes resulta em desencontro erótico: os valores da domesticidade — segurança, previsibilidade, igualitarismo — entram em rota de colisão com os ingredientes do desejo — mistério, distância e novidade. O casal passa a enxergar-se como copais, e não mais como amantes, operando-se uma erosão da sensualidade que aprofunda o distanciamento. Diante do estresse real e das exigências de cuidado, a quebra da expectativa mágica acelera a decisão pela separação, evidenciando que o recém-nascido, em vez de unir ou consertar o relacionamento, atuou como o teste de estresse definitivo sobre uma estrutura conjugal previamente fragilizada.
Referências
Estudos em psicologia, sociologia e filosofia
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Fontes estatísticas
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Estatísticas do Registro Civil — 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.
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FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ — ESCOLA NACIONAL DE SAÚDE PÚBLICA (ENSP/FIOCRUZ). Pesquisa Nascer no Brasil: sintomatologia depressiva pós-parto. Rio de Janeiro, 2016.